Naluh Braga
Há coisas que tem que ser ditas na hora e coisas que podem esperar. Na última quinta-feira dia 5 de setembro, o até então ministro dos Direitos Humanos e Cidadania, Silvio Almeida foi acusado de assédio sexual pela organização Me Too Brasil – organização que atua no acolhimento de vítimas de violência sexual em todo o mundo -, que confirmou ter recebido denúncias de algumas vítimas. Após o caso vir à tona, iniciou-se uma movimentação para lidar com a situação e tudo culminou na demissão de Almeida do cargo. A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, que está entre as vítimas, disse que a decisão do presidente Lula de demitir Almeida foi uma “ação contundente”.
O caso será investigado e Almeida pede para que os fatos sejam expostos para que possa se defender dentro dos processos legais. Ele ainda disse que é o maior interessado em provar sua inocência. Afinal, é sempre interessante para o acusado ser inocente, um pouco óbvio essa fala, não acha?
Há ainda quem defenda a ideia de que tudo isso faça parte de uma armação conta Silvio Almeida, visando desestabilizar não só ele como toda a gestão Lula.Essa suposição acabou ganhando mais força depois que a esposa do ex-ministro, Ednéia Carvalho publicou em seu instagram: “O ministro quer gente séria, comprometida e dedicada no ministério. Quem saiu de lá por vagabundagem ou incompetência fica agora criando história para justificar seu fracasso”.
O que temos então? Um homem negro que chegou ao cargo de ministro e foi acusado de assédio. Uma ministra negra e defensora dos direitos das mulheres que foi assediada. E um governo de centro-esquerda lidando com esse turbilhão que traz instabilidade e questionamentos para a gestão.
As críticas nas redes sociais questionam a moral do governo, as ações do ex-ministro e até mesmo a atitude de Anielle por só ter se pronunciado agora. Como se fosse super fácil falar de uma situação delicada como essa em público, ainda mais estando em um cargo de destaque.
Questiona-se também a integridade do governo Lula que tem como uma das pautas principais a defesa da mulher e a seguridade dos direitos humanos. Logo, uma acusação como essa simboliza uma falha no governo.

Obviamente o presidente Lula não pode controlar as ações pessoais de todos seus ministros e colaboradores. E a ação de tirar Almeida do cargo foi a mais sensata a se tomar. Como jornalista afirmo que a assessoria e demais braços do governo estão de parabéns por lidar de forma tão eficiente, coesa e rápida com a situação. Quanto mais o ex-ministro ficasse no cargo, mais problemas traria para o governo.
Como cidadã entendo que o caso está sendo um susto pois, mais uma vez, não é algo que se espera de um governo de centro-esquerda. Muito menos de um homem tão conceituado na área e defensor ferrenho dos direitos humanos e da igualdade racial. E vejo que essas acusações enfraquecem o movimento anti-racista e dá brecha para seguidores de direita se pronunciarem contra os negros e reforçarem esteriótipos raciais. Não é à toa que comentários racistas estão sendo fortemente proferidos nas redes sociais sobre o caso.
De qualquer forma, não estamos aqui para fazer juízo de valor de ninguém nem bater o martelo se Almeida assediou ou não. Isso cabe à justiça. Certo é que sendo Almeida inocente ou não, essas acusações ficarão marcadas na história e dificilmente serão apagadas da trajetória do governo Lula. Arrisco dizer também que ainda há muito a ser desenrolado e teremos que esperar atualizações das investigações.
Caso Almeida seja julgado culpado, perde-se muito para o movimento anti-racista. E, se a suposta armação contra ele for verdadeira, perde-se credibilidade para o movimento feminista, uma vez que as acusações de assédio seriam falsas e reforçariam a ideia de que o feminismo é “mimizento”. Então, parafraseando a ex-presidenta Dilma, “Todo mundo sai perdendo”.
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